Setembro – Panorama da Disputa Presidencial

Panorama Geral

O primeiro turno das eleições de 2022 será realizado no dia 02/10. A três dias do pleito, o cenário da disputa presidencial segue estável, com os dois principais concorrentes, o ex-presidente Lula (PT) e o Presidente Jair Bolsonaro (PL), liderando as pesquisas de intenção de voto, com pequenas oscilações registradas entre os principais institutos de sondagens.

A estabilidade e a cristalização precoce de intenção de votos nos líderes da pesquisa, aliás, são características marcantes da eleição presidencial de 2022. O cenário da disputa pouco se alterou desde abril de 2021, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou condenações de Lula e o tornou novamente apto a disputar as eleições. Desde então, Lula e seu entorno têm buscado construir alianças políticas com a finalidade de garantir robustez à sua candidatura. Em consequência, em resposta aos movimentos do ex-presidente, o Presidente Jair Bolsonaro antecipou-se em se colocar como candidato à reeleição. E, como resultado, o Brasil vive em clima eleitoral desde o início de 2021.

A forte cristalização de intenção de votos nos líderes das pesquisas propiciou, ainda, outro fenômeno: a dificuldade de candidaturas alternativas a Lula e Bolsonaro se mostrarem competitivas. Os números das pesquisas revelam a baixa aderência do eleitorado a estes candidatos. O atual terceiro colocado nas pesquisas, Ciro Gomes (PDT), não atinge dois dígitos nas intenções de voto, oscilando entre 6% e 7%. Logo atrás, está a Senadora Simone Tebet (MDB), que há semanas se consolidou no patamar de 5%. As demais candidaturas, quando muito, registram 1% da preferência dos eleitores.

Contudo, às vésperas da primeira rodada de votações, paira a incerteza sobre definição da disputa. Se em primeiro ou segundo turno. Não obstante as pesquisas registrarem trajetória ascendente da candidatura do ex-presidente Lula, com algumas conferindo ao candidato possibilidade de sagrar-se vitorioso em 02 de outubro, a estabilidade de Bolsonaro na casa dos 30% de intenções de votos, além da resiliência do terceiro e quarto colocados, tornam praticamente impossível projetar os resultados advindos das urnas no próximo domingo.

A partir do cenário de indefinição, as principais candidaturas traçam estratégias para os dias que antecedem a votação. Enquanto Lula se empenha para alcançar um feito inédito para ele e o PT, a vitória em primeiro turno, as campanhas de Bolsonaro, Ciro e Tebet, ainda que objetivos distintos, trabalham para levar o pleito a uma segunda etapa de votações.

Hoje (29/09) é o último dia para veiculação das propagandas eleitorais no rádio e TV antes do primeiro. Também hoje será realizado o último debate televisivo. Estes serão os últimos instrumentos a serem utilizados pelas campanhas para conquistar um ativo muito cobiçado nesta reta final: os votos dos eleitores indecisos.

O debate será a última oportunidade antes da votação para um confronto direto entre os concorrentes. Virtudes e fragilidades pessoais dos candidatos e de suas propostas serão fortemente exploradas, com pouca margem para erros. Para Lula, qualquer ponto ganho ou perdido pode representar maior ou menor chance de sair vitorioso no dia 02/10. Já o Presidente intenta ganhar mais tempo de campanha na tentativa de se reeleger. Para nenhum dos dois, entretanto, o caminho será fácil ou simples. Nas duas vezes em que venceu as eleições (2002 e 2006), Lula chegou aos dias que precederam a votação com índices de intenção de votos próximos ao que registra hoje, quase 50%. Em ambas as ocasiões, o resultado foi definido apenas no segundo turno. E, caso o ex-presidente não atinja a quantidade suficiente de votos para elegê-lo em 02/10, Bolsonaro precisará reverter a larga vantagem hoje registrada para Lula. Tendo como parâmetro as pesquisas eleitorais mais recentes, a depender do instituto, o Presidente aparece entre 10 e 17 pontos percentuais atrás de Lula.

A última pesquisa eleitoral será divulgada pelo Instituto Datafolha no dia 01/10, um dia antes do dia decisivo. O levantamento poderá indicar o ânimo dos eleitores após o debate e suas repercussões.

Disputa Lula x Bolsonaro

A campanha eleitoral de 2022 começou, oficialmente, em 15 de agosto. Todavia, o ambiente de disputa entre os líderes das pesquisas perdura desde o início de 2021. O que se tem visto até este momento confirmam as expectativas vislumbradas desde o ano passado: o confronto entre Lula e Bolsonaro se caracteriza, sobretudo, por uma batalha de rejeições.

Tanto Lula quanto Bolsonaro trabalharam arduamente ao longo da campanha para fixar no eleitor pontos negativos do adversário e elevar os índices de rejeição de um e de outro. Contra Lula ainda pesa o fato de ter sido condenado em ações judiciais oriundas da Operação Lava-Jato, embora as condenações tenham sido anuladas pela Justiça. Contra Bolsonaro pesa a postura combativa contra membros do Poder Judiciário, críticas insistentes ao sistema eleitoral (consideradas como antidemocráticas), a postura negacionista durante a pandemia de Covid-19 e também acusações de corrupção durante sua gestão.

Mas, se por um lado Lula e Bolsonaro exploraram exaustivamente as debilidades de cada um, por outro, na tentativa de conquistar eleitores, também trabalharam para reforçar o que consideram pontos positivos. Lula tenta resgatar na memória do eleitor as iniciativas dos governos petistas entre 2003 e 2010. Bolsonaro tem exaltado os feitos de sua gestão, sobretudo os recentes dados econômicos como a redução dos preços de combustíveis e do desemprego, além dos benefícios sociais criados ou expandidos. Estes benefícios, porém, é válido assinalar, são temporários e os meios para garantir perenidade, promessa de ambos, não estão definidos.

Nenhum dos dois, todavia, apresentou propostas concretas para o que pretendem fazer se chegarem ao Palácio do Planalto. Os líderes das pesquisas de intenção de votos registraram programas de governo genéricos, com poucas respostas às principais questões e demandas da população. Quem quer que seja eleito nestas eleições enfrentará problemas domésticos reais, como incertezas fiscais, índices de inflação ainda resistentes e questões sociais. E mais. O eleito enfrentará um cenário internacional instável, como ameaças de recessão econômica em grandes potências, além da crise persistente proveniente da guerra entre Rússia e Ucrânia. Todos estes elementos projetam grandes desafios a serem enfrentados e superados a partir de 2023.

Mesmo em um cenário de estabilidade no registro de intenções de votos, nos últimos dias, Lula conseguiu convergir ondas de apoio de diferentes setores que podem ampliar seu desempenho positivo. Destacam-se as declarações públicas de apoio de ex-presidentes do STF, artistas e lideranças políticas e econômicas. A busca de construção dessa “frente ampla” de apoio por Lula tem como objetivo precípuo a conquista do chamado “voto útil”, em que eleitores de outros candidatos poderiam migrar suas preferências iniciais para outras candidaturas consideradas mais competitivas.

Com a adesão de múltiplos atores à sua candidatura, o ex-presidente incentiva, também, o sentimento “antibolsonarista”. Lula tenta, então, utilizar estratégia similar à de Bolsonaro em 2018. Em 2018, o Presidente se elegeu inflamando o sentimento de “antipetismo”, muito presente entre a população após o desgaste enfrentado pelo PT em virtude de sucessivos escândalos de corrupção nos governos Lula e Dilma Rousseff e da forte crise econômica que o País vivenciava. Hoje, os índices de rejeição de Bolsonaro e sua gestão consolidaram-se em patamares elevados (mais de 40%). Entretanto, mesmo com os atuais números mais favoráveis a Lula, não se pode considerar que o Presidente Bolsonaro deixou de ser um candidato competitivo. Ele conta com militância forte e coesa e ainda dispõe do controle da máquina pública. Caso a definição da disputa presidencial seja definida somente em 30/10, data do segundo turno, ele terá quase 30 dias para tentar criar fatos positivos a seu favor.

Ciro Gomes e Simone Tebet

Muito se falou ao longo da campanha da grande polarização na disputa entre Lula e Bolsonaro e da cristalização precoce dos votos nos dois candidatos. Diante deste cenário, no final de 2021, começou a se desenhar um movimento de construção de candidatura alternativa para fazer frente às candidaturas dos dois principais concorrentes.

Vários nomes se colocaram entre as possibilidades da chamada “terceira via”. Porém, pode-se considerar que apenas dois candidatos conseguiram chegar ao final desta disputa apartada: Ciro Gomes e Simone Tebet.

Ciro se Simone construíram campanhas com objetivos definidos, porém distintos. Ciro Gomes, que concorre à Presidência da República pela quarta vez, desde o início da campanha teve dificuldades em firmar alianças para dar suporte à sua candidatura. Nesta reta final, Ciro enfrenta dissidências de apoiadores e correligionários que chegaram, inclusive, a incentivá-lo a desistir da disputa e apoiar Lula no primeiro turno. Em resposta a este momento, esta semana, ele divulgou um “manifesto” em que reafirmou sua intenção de se manter na disputa para, segundo ele, “seguir em frente com o projeto nacional de desenvolvimento”. Para frear o movimento da campanha petista de incentivo à migração de votos a favor de Lula, especialmente dos eleitores que indicam nas pesquisas que poderiam mudar sua escolha, Ciro não tem economizado nas críticas ao ex-presidente. Está em jogo, para Ciro Gomes, em 2022, seu próprio capital político. Rememore-se que em 2018, Ciro Gomes chegou a ser convidado para ser candidato a vice na chapa de Fernando Haddad (PT) quando este foi escolhido para substituir Lula na disputa presidencial. Ciro optou por seguir com candidatura própria e terminou o pleito em terceiro lugar, com 12.47% dos votos válidos (13.344.371 de votos). Ciro Gomes luta para não sair das eleições de 2022 menor do que entrou.

Simone Tebet, por sua vez, concorre pela primeira vez à Presidência. Praticamente desconhecida dos eleitores em âmbito nacional, a Senadora tinha como objetivo claro firmar seu nome e se colocar na posição de futura postulante em eleições futuras. Embora pertença a um partido tradicional da política nacional, o MDB, ela busca convencer os eleitores de que representa o novo.

A Senadora chega à última semana de campanha em quarto lugar nas pesquisas de intenção de voto. Porém, com números muito próximos aos registrados por Ciro Gomes. Em pesquisa divulgada hoje pelo Datafolha, Simone alcança 5% dos votos válidos, enquanto Ciro surge com 6%. Com baixos índices de rejeição e boas performances em debates e entrevistas, a candidata é das que melhor aproveita as oportunidades de exposição para explorar de forma positiva as propostas registradas em seu programa de governo.

Simone Tebet, que enfrentou fortes resistências internas até ser confirmada como candidata do partido à Presidência da República, tem potencial de encerrar a disputa como o emedebista com melhor desempenho em um pleito presidencial, superando os 4,74% de Ulysses Guimarães em 1988. Em 2018, o MDB concorreu ao Palácio do Planalto com Henrique Meirelles, que alcançou somente 1,2% dos votos válidos (1.288.948), terminando a disputa em sétimo lugar.

Artigo elaborado pela equipe da Umbelino Lôbo em 29/09/2022.

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