Geraldo Alckmin no PSB

Após 33 anos filiado ao PSDB, partido que ajudou a fundar, o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, se filia ao PSB para, possivelmente, concorrer à vice-Presidência da República na chapa que deverá ser encabeçada pelo ex-presidente Lula (PT). Após meses de negociação sobre o seu destino político-partidário, envolvendo siglas como o PSD e o PV, na última semana Alckmin finalmente confirmou que se filiaria ao PSB. O anúncio veio após o alinhamento do partido com o PT para montagem das chapas e palanques regionais.

A cerimônia de filiação, em Brasília, foi prestigiada por lideranças de ambos os partidos, como governadores e parlamentares. Porém, não contou com a presença de Lula. A presidente do PT, Gleisi Hoffmann (PR), esteve presente e afirmou que as legendas possuem uma trajetória política comum, reafirmando a intenção de construção da candidatura de Lula.

Ao discursar, Alckmin declarou que a “política é a arte do bem comum” e saudou o PSB pela decisão de apoiar a candidatura do ex-presidente. Alckmin reconheceu o sentimento de estranheza pelo fato de ter sido concorrente de Lula na eleição presidencial de 2006, quando perdeu para o petista no segundo turno. Mas declarou está disposto a “somar” e ajudar na candidatura de Lula. Ao final de seu discurso, Alckmin relembrou o ex-governador de São Paulo, Mário Covas, de quem foi vice-governador.

Perfil de e trajetória política de Alckmin

Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho nasceu em 7 de novembro de 1952 em Pindamonhangaba. Professor e médico, foi eleito vereador em 1972, aos 19 anos, pelo antigo MDB. Quatro anos mais tarde, foi eleito prefeito de sua cidade natal. Em 1982, foi eleito deputado estadual pelo PMDB e em 1986, deputado federal. Alckmin foi membro da Assembleia Nacional Constituinte em 1988. No mesmo ano, ingressou no PSDB. Dois anos depois, foi reeleito deputado federal. Em 1994, foi eleito vice-governador de Mário Covas (PSDB). Quatro anos depois, em 1998, a dupla reelegeu-se. Com a morte de Covas, em 2001, assumiu o governo e se reelegeu como governador em 2002.

Após uma disputa interna no partido, conseguiu ser indicado candidato à Presidência pelo PSDB para concorrer às eleições de 2006. Acabou perdendo a disputa no segundo turno para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que foi reeleito.

Dois anos depois, enfrentou novamente uma disputa no partido e candidatou-se à Prefeitura de São Paulo. Parte da legenda preferia apoiar o prefeito Gilberto Kassab, à época filiado ao antigo DEM, aliado do então governador José Serra. Alckmin conseguiu se candidatar, mas deixou a disputa ainda no primeiro turno, e terminou em terceiro lugar. No ano seguinte, convidado por Serra, Alckmin assumiu a Secretaria de Desenvolvimento do governo do Estado.

Em 2010, Geraldo Alckmin foi eleito para o governo de São Paulo com 50,63% dos votos válidos. Em 2014 foi reeleito governador para o seu quarto mandato. Em 2017, Alckmin foi eleito presidente Nacional do PSDB.

Em 2018, como presidente do partido, Alckmin lançou sua pré-candidatura à Presidência da República. Após a desistência de Arthur Virgílio, passou a ser o candidato único das prévias. No dia 1 de janeiro de 2018, Alckmin deixou o governo para se dedicar a sua candidatura ao Planalto. Nas eleições deste ano, encerrou a disputa presidencial em quarto lugar e o pleito foi vencido pelo Presidente Jair Bolsonaro.

O caminho até a filiação

A filiação de Geraldo Alckmin ao PSB foi confirmada no dia 18 de março por meio de postagem em rede social. Na publicação, o ex-governador fez referência a uma frase utilizada pelo ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos, em sua última entrevista antes do acidente aéreo que o vitimou em 2014, quando concorreria à Presidência da República. Na ocasião, ele mencionou “Não vamos desistir do Brasil”. Ao anunciar sua filiação, Alckmin afirmou “O tempo da mudança chegou! Depois de conversar muito e ouvir muito eu decidi caminhar com o Partido Socialista Brasileiro – PSB. O momento exige grandeza política, espírito público e união”.

O caminho até a confirmação da decisão contou com desconfiança e críticas tanto de petistas como de ex-companheiros do PSDB. Embora seu nome para compor a chapa com Lula ainda sofra resistências, o acordo é dado como certo, já que o ex-tucano é tido como preferido pelo ex-presidente e esta decisão deverá ser respeitada, dissipando as aversões.

Ainda em 2008, quando Alckmin disputou a prefeitura de São Paulo e teve um desempenho ruim, terminando o primeiro turno com 22,48%, atrás de Gilberto Kassab (PSD) e Marta Suplicy (PT), o PSB chegou a oferecer a legenda para ele disputar a eleição seguinte, para o governo do Estado. Neste momento, Alckmin optou por permanecer no PSDB e se aproximou de Márcio França, que viria a ser seu vice-governador na eleição de 2014.

Alckmin viveu um período de ostracismo político a partir de 2018, quando encerrou o 1º turno com apenas 4,76 % dos votos válidos. Nas eleições de 2018, ele ainda sofreu outro revés. Seu então afilhado político e atual governador de São Paulo, João Doria, que se elegeu com seu apoio para o seu primeiro cargo eletivo (prefeito de São Paulo), em 2018, quando venceu as eleições para o governo do Estado, se afastou de Alckmin e declarou apoio ao Presidente Jair Bolsonaro.

Em 2021, pesquisas prévias de intenção de votos indicavam boas chances de Alckmin se eleger novamente para o Governo de São Paulo. Ele, então, foi cortejado pelo PSD, liderado por Gilberto Kassab, para ingressar nos quadros da legenda. Embora em 2021 os números fossem favoráveis a Alckmin, havia a percepção de que concorrer novamente ao governo estadual não seria fácil, já que deveria enfrentar candidatos fortes, como Fernando Haddad (PT) e o nome apoiado por Doria, seu vice-governador, Rodrigo Garcia. Ademais, pairavam dúvidas, sobre as intenções do PSD de lançar um projeto de candidatura nacional.

Há que se ressaltar a heterogeneidade do PSD, divido internamente entre apoiadores do Presidente Bolsonaro e do ex-presidente Lula, e com apelo para a construção de uma bancada forte no Congresso Nacional em detrimento de uma candidatura para Presidência da República. Hoje, o PSD com uma bancada de 39 deputados e 11 senadores.

Escanteado dentro do PSDB, pode-se dizer que, ironicamente, Alckmin foi “resgatado” politicamente com auxílio de um ex-adversário das urnas, o ex-presidente Lula. Ambos atuaram em lados opostos no passado. Em 2006 disputaram as eleições presidenciais e Alckmin foi derrotado pelo petista tendo angariado menos votos no segundo do que os recebidos no primeiro turno.

Porém, com Lula autorizado pela Justiça a disputar novamente uma eleição após a anulação de condenações, e o PT vislumbrando chances de derrotar o Presidente Jair Bolsonaro, cuja gestão é mal avaliada em pesquisas, abriu-se as possibilidades para Lula buscar um nome visto como facilitador, de diálogo e que agregasse votos de um espectro político mais conservador, especialmente no estado de São Paulo, maior colégio eleitoral do Brasil.

 A antiga disputa política não impediu Lula de acenar para Geraldo Alckmin, no final de 2021, como possível vice em sua chapa presidencial. À época, Lula declarava que o PT precisava entender a necessidade de se formar uma aliança forte para tornar sua candidatura competitiva contra o Presidente Bolsonaro. Oportuno mencionar que o pré-candidato do PT ao Estado de São Paulo, o ex-prefeito Fernando Haddad, foi um dos entusiastas, apoiadores e articuladores da composição de possível chapa presidencial Lula-Alckmin.

Após um longo período de negociação que envolveu ainda a possibilidade de formação de federação partidária entre PT e PSB, a qual terminou não se concretizando, as legendas chegaram ao entendimento de que se apoiariam com o nome de Lula para o Planalto.

Conhecido nos bastidores como um político que preza o diálogo e o entendimento, a expectativa é que Alckmin, na eventual confirmação da chapa com Lula, possa utilizar sua habilidade de conciliador para expandir alianças consideradas estratégicas e amenizar fragilidades do PT, com o estreitamento, por exemplo, de relações com o eleitorado do Sul e do Sudeste, com o agronegócio e empresariado.

Artigo Elaborado pela Equipe da Umbelino Lôbo Assessoria e Consultoria em 23/03/2022.

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