Cenário – 2º Turno: retomada da campanha

Cenário – 2º Turno: retomada da campanha

Após o fechamento das urnas, em 02/10, e do encerramento da apuração dos votos, o resultado final confirmou a expectativa de realização de 2º turno na eleição presidencial.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrou a disputa com mais de 6 milhões de votos à frente do Presidente Jair Bolsonaro. Lula angariou 48,4% da preferência do eleitorado enquanto Bolsonaro encerrou o 1º turno com 43,2%.

O desempenho do Presidente Bolsonaro foi superior ao estimado nas projeções feitas por institutos de pesquisa divulgadas na véspera da votação. O resultado da primeira etapa de votações denota quão acirrada será a disputa em 2º turno. Em outras palavras, a eleição presidencial está em aberto, com chances de vitória para ambos os candidatos.

Uma análise fria dos números ainda pode sugerir um favoritismo do ex-presidente. Ademais, um fato é certo. Desde 1989, quando foi realizada a 1ª eleição presidencial após a redemocratização e quando foi instituído o sistema eleitoral de dois turnos, o segundo colocado na primeira etapa de votações não ultrapassou o primeiro e este conquistou a vitória. Mas as eleições de 2022 contam com dois diferenciais. O resultado de 1º turno é o mais “apertado” para o primeiro colocado desde 1989 e é a primeira vez em que um presidente em exercício e um ex-presidente se enfrentam em 2º turno.

Em apenas duas ocasiões, 1994 e 1998, as eleições foram definidas em 1º turno. Em ambos os peitos, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso venceu Lula.

1989: Collor (PRN) x Lula (PT)

1º Turno: 30,48% x 17,19%

Resultado 2º Turno: 57% x 43% (Vitória de Collor)

2002: Lula (PT) x José Serra (PSDB)

1º Turno: 46.44% x 23.19%

Resultado 2º Turno: 61% x 39% (Vitória de Lula)

2006: Lula (PT) x Geraldo Alckmin (PSDB)

1º Turno: 48.6% x 41.6%

Resultado 2º Turno: 60,83% x 39,8% (Vitória de Lula)

2010: Dilma Rousseff (PT) x José Serra (PSDB)

1º Turno: 46.91% x 32.61%

Resultado 2º Turno: 56% x 44% (Vitória de Dilma)

2014: Dilma Rousseff (PT) x Aécio Neves (PSDB)

1º Turno: 41.59% x 33.55%

Resultado 2º Turno: 52% x 48% (Vitória de Dilma)

2018: Jair Bolsonaro (PSL) x Fernando Haddad (PT)

1º Turno: 46.03% x 29.28%

Resultado 2º Turno: 55% x 45% (Vitória Bolsonaro)

Com o resultado final de 1º turno consolidado, reiniciaram-se as campanhas dos dois candidatos. Esta primeira semana pós-primeiro turno foi marcada pela busca de apoios e construção de novas alianças.

As estratégias iniciais adotadas por Lula e Bolsonaro seguiram lógicas distintas. Lula focou nos partidos e candidatos derrotados no 1º turno e obteve o apoio formal de PDT; do ex-candidato do partido à Presidência, Ciro Gomes; e da ex-candidata Simone Tebet. O partido de Simone, MDB, manteve posição neutra e liberou diretórios locais (estaduais e municipais) para apoiarem um ou outro candidato. Neste sentido, nos últimos dias, Lula recebeu o apoio do governador reeleito do Pará, Helder Barbalho. Do mesmo partido, o governador reeleito do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, declarou apoio ao Presidente Bolsonaro.

Ao longo da semana, outros governadores já eleitos e candidatos que disputarão o 2º turno das eleições estaduais anunciaram suas posições.

Entre os governadores, o Presidente Bolsonaro recebeu apoio de 8 já eleitos em 1º turno: MG (Romeu Zema – NOVO); RJ (Cláudio Castro – PL); PR (Ratinho Junior – PSD); AC (Gladson Camelli – PP); GO (Ronaldo Caiado – União Brasil); MT (Mauro Mendes – União Brasil); DF (Ibaneis Rocha – MDB); e RR (Antônio Denarium – PP). O Presidente também recebeu apoio do Governador de São Paulo, Rodrigo Garcia (PSDB), que terminou a disputa em primeiro turno em terceiro lugar.

Já entre os candidatos que ainda disputarão o segundo turno, o Presidente terá palanque garantido em 7 estados: SP (Tarcísio de Freitas – Republicanos); ES (Carlos Manato – PL); AM (Wilson Lima – União Brasil); SC (Jorginho Mello – PL); RS (Onyx Lorenzoni – PL). No Mato Groso do Sul (MS) e em Rondônia (RO), ocorre uma situação peculiar. Os dois candidatos postulantes no MS Capitão Contar (PRTB) e Eduardo Riedel (PSDB), e em RO, Coronel Marcos Rocha (União Brasil) e Marcos Rogério (PL), são apoiadores declarados de Bolsonaro.

O ex-presidente Lula recebeu apoio de 6 governadores eleitos em primeiro turno: CE (Elmano de Freitas – PT); MA (Carlos Brandão – PSB); PI (Rafael Fonteles – PT); RN (Fátima Bezerra – PT); PA (Helder Barbalho – MDB); e AP (Clécio Andrade – Solidariedade).

Lula participará de palanques estaduais em 8 estados: SP (Fernando Haddad – PT); ES (Renato Casasgrande – PSB); AL (Paulo Dantas – MDB); AM (Eduardo Braga – MDB); PE (Marilia Arraes – Solidariedade); BA (Jerônimo Rodrigues – PT); SC (Décio Lima – PT); SE (Rogério Carvalho – PT).

Além de governadores e candidatos aos governos estaduais, Lula e Bolsonaro receberam apoio de lideranças políticas e outras personalidades.

Lula recebeu formalmente o apoio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC); dos senadores José Serra (PSDB) e Tasso Jereissati (PSDB); e dos economistas Armínio Fraga, Pedro Malan, Edmar Bacha e Pérsio Arida, membros do governo FHC.

Natural do processo político e eleitoral, estas adesões possuem peso simbólico e se configuram como demonstração de força para os candidatos. Mas fica a questão do quão relevante estes apoios são para resultarem no objetivo final e mais importante: os votos necessários para que um ou outro candidato conquiste a vitória.

Uma das características mais marcantes da política e do processo eleitoral nacionais é o caráter personalista, o que confere relevância aos apoios de governadores, candidatos aos governos estaduais, prefeitos, ex-candidatos e parlamentares eleitos. Neste ponto, dois elementos centrais se colocam: o domínio da máquina pública e o espólio de votos. Mas o que seria mais importante?  

No caso dos candidatos derrotados no primeiro turno das eleições, Ciro Gomes e Simone Tebet, juntos, conquistaram 8,5 milhões de votos. A declaração de apoios dos dois a Lula, contudo, não significa uma transferência automática de votos. Não obstante esteja presente a simbologia política. Especialmente a adesão de Simone Tebet, que, ao declarar seu apoio, não se furtou de tecer críticas à campanha do petista no primeiro turno e cobrou do candidato compromissos quanto ao detalhamento de suas propostas econômicas, sobretudo relacionadas à pauta de equilíbrio fiscal.

No que respeita à posição de legendas, governadores, candidatos aos governos estaduais e prefeitos, o apoio, para ser efetivo, dependerá necessariamente da disponibilização de suas estruturas aos candidatos em campanha. Ainda neste ponto específico, há a dúvida sobre a capacidade de mobilização nos estados em que a eleição foi definida em primeiro turno. Importante rememorar que 15 governadores foram eleitos no primeiro turno. Nestes estados, mesmo que a campanha presidencial esteja em aberto, é possível imaginar que é mais difícil reativar nível similar de mobilização. Encontram-se neste grupo de estados Minas Gerais e Rio de Janeiro, segundo e terceiro maiores colégios eleitorais do Brasil, respectivamente. Ambos estão no centro de atenção de Lula e Bolsonaro. Em Minas, Lula obteve uma pequena vantagem sobre Bolsonaro, com uma diferença de cerca de 500 mil votos. No Rio de Janeiro, Bolsonaro venceu Lula com 51,09% dos votos contra 40,68% do ex-presidente.

Oportuno assinalar que o apoio de governadores, principalmente os eleitos, são importantes, também, pelo relacionamento destes atores com prefeitos e parlamentares. Mas é necessário o engajamento destas lideranças e suas bases de apoio nas campanhas.

Por hora, com a disputa em segundo turno indefinida e com elevado nível de competição, sem dúvida, há mais questionamentos que respostas. Apenas o desenrolar da campanha será capaz de elucidar todas estas questões. Pela frente, os candidatos terão 23 dias de campanha. O resultado final sobre a eficácia das estratégias virá apenas em 30 de outubro, quando todos conhecerão o próximo presidente do Brasil.

Elaborado pela equipe da Umbelino Lôbo Assessoria e Consultoria em 07/10/2022.

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