Agosto – Panorama da Disputa Presidencial

Nas últimas duas semanas, alguns marcos temporais importantes do calendário eleitoral imprimiram outro ritmo à disputa. No dia 15 de agosto encerrou-se o prazo para registros de candidaturas junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A partir do dia seguinte (16/08), os candidatos estavam autorizados, oficialmente, a “fazerem campanha”, ou seja, se promoverem com a finalidade expressa de pedir voto ao eleitor.

No dia 26/08 começaram a ser veiculadas as propagandas eleitorais no rádio e na televisão.  A despeito da ampla utilização das redes sociais na propagação de ideias e projetos, a exposição na propaganda eleitoral ainda pode ser determinante para um candidato alcançar os eleitores, sobretudo os indecisos.

Com a confirmação dos nomes que deverão concorrer nas eleições de outubro, as pesquisas de intenção de voto divulgadas desde o encerramento do prazo para registro das candidaturas, ressalvadas as diferenças metodológicas entre elas, podem indicar algumas tendências.

A primeira delas, e talvez a mais notória, é a tendência de se verificar a possibilidade de antecipação de um possível segundo turno já na primeira rodada de votação, em 02 de outubro. Os dois primeiros colocados nas pesquisas, o ex-presidente Lula (PT) e o Presidente Jair Bolsonaro (PL), somam juntos cerca de 80% das intenções de votos.

Desta primeira tendência, advém outra, também bastante perceptível: a dificuldade de outros candidatos se mostrarem viáveis e competitivos em uma eleição tão polarizada como a de 2022. Neste espectro encontram-se Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB). Ambos enfrentam obstáculos bem delineados. Ciro, apesar de ser conhecido pelo público, ao concorrer com um eleitorado mais alinhado ao de Lula, tem dificuldade convencer o eleitor sobre sua agenda programática. Já Simone Tebet enfrenta a dificuldade de se fazer conhecida pelo eleitorado a tempo de tentar alavancar sua candidatura.

Em um cenário de competição eleitoral, protagonizado por Lula e Bolsonaro, e com dificuldades de ascensão de outros concorrentes, outra característica do pleito chama a atenção: o caráter quase plebiscitário da escolha que se impõe ao eleitor.

Estas e outras características da disputa serão analisadas a seguir.

Panorama Geral

Apesar de a campanha ter começado, oficialmente, no dia 16/08, o clima de disputa eleitoral já se mostra presente há mais tempo.

Desde o ano passado, especialmente após o ex-presidente Lula readquirir seus direitos políticos, movimentos e negociações por acordos e alianças ocasionaram um ambiente de disputa eleitoral precoce.

O ex-presidente foi um dos primeiros atores políticos a se colocar na posição de pré-candidato. Lula buscou se aproximar – ou se reaproximar – de importantes lideranças políticas tradicionais, visitou chefes de Estado no exterior para se posicionar como candidato e começou a negociar uma aliança até então considerada improvável: convencer o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, a compor a chapa presidencial na posição de vice.

O Presidente Bolsonaro, por sua vez, enfrentava problemas internos em seu governo. Dois dos três anos de governo foram marcados por um evento inesperado e que alterou as bases e diretrizes propostas pelo Presidente quando de sua eleição, em 2018: a pandemia de Covid-19, cujos reflexos sociais e econômicos trouxeram desafios ao Governo Bolsonaro.

Até meados de 2022, Bolsonaro enfrentou um cenário de “tempestade perfeita”. O País viveu, simultaneamente, crises econômica, sanitária e política, que resultou em elevados índices de rejeição ao Presidente e sua gestão.

O primeiro semestre de 2022 foi particularmente desafiador. O conflito militar entre Ucrânia e Rússia ocasionou elevação nos preços internacionais do petróleo, o que impactou diretamente os preços internos dos combustíveis no Brasil e, consequentemente, elevou os índices de inflação.

A guerra no continente europeu, que se estende há seis meses, trouxe, ainda, ameaça de desabastecimento de fertilizantes. Um cenário de desabastecimento de insumos poderia prejudicar a produção agrícola e provocar ainda mais pressão inflacionária.

Com a popularidade em baixa, o governo do Presidente Bolsonaro adotou medidas unilaterais e contou com o apoio do Congresso Nacional para aprovar legislações que pudessem amenizar os impactos do aumento da inflação, sobretudo para as classes mais baixas, que compõem a maior parte do eleitorado.

Entre as medidas podem ser mencionadas a redução da alíquota de Imposto de Importação para itens da cesta básica e etanol; a aprovação de lei complementar que modificou a incidência do ICMS e de outros tributos sobre combustíveis; além da ampliação do valor do Auxílio Brasil e a criação de auxílios a caminhoneiros e taxistas.

Com pouco mais de um mês para o primeiro turno das eleições, a expectativa do Presidente e seus aliados é que as ações do governo amplie as intenções de votos e reduza a distância para o primeiro colocado nas pesquisas, o ex-presidente Lula.

Panorama da Disputa

Lula x Bolsonaro

Após o período de registro das candidaturas e o início oficial da campanha eleitoral, o cenário da disputa ganha novos contornos e começam a ficar mais claras as estratégias das campanhas dos principais candidatos.

As primeiras pesquisas de intenção de votos publicadas após o início da campanha confirmam tendências apontadas desde o final do ano passado. A disputa segue polarizada pelo ex-presidente Lula e o Presidente Jair Bolsonaro. Ademais, o Presidente tem conseguido, ainda que lentamente, reduzir a diferença para Lula. Já o cenário para os candidatos do grupo anteriormente denominado “terceira via” se apresenta menos promissor.

Parte da recuperação do Presidente pode ser creditada ao pacote de benefícios aprovado no final de julho pelo Congresso Nacional, além das recentes reduções nos preços de combustíveis e nos índices de inflação.

Todavia, por hora, a elevação no valor do Auxílio Brasil, uma das grandes apostas do entorno do Presidente Bolsonaro para melhorar seu desempenho eleitoral, não rendeu os dividendos esperados. Apesar do aumento de R$ 400 para R$ 600 no valor do benefício, Lula segue sendo o candidato preferido da parcela da população que ganham até dois salários-mínimos mensais (R$ 2.424).

A inflação, embora ainda permaneça em patamar elevado, tem dado sinais de arrefecimento. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) – considerado a prévia da inflação oficial do país – teve queda de 0,73% em agosto, após alta de 0,13% registrada em julho.

A melhora na perspectiva econômica do País pode estimular uma trajetória de alta nas intenções de votos no Presidente. A dúvida é se haverá tempo hábil para Bolsonaro reduzir a distância para Lula a fim ou de reverter a liderança do ex-presidente nas pesquisas ou levar a disputa para o segundo turno.

As campanhas de Lula e Bolsonaro, hoje, travam batalhas semelhantes. Ambos os grupos trabalham para exaltar os legados dos candidatos e, ao mesmo tempo, ampliar a rejeição ao oponente.

O índice de rejeição ao governo, aliás, pode ser considerado um dos maiores obstáculos do Presidente Bolsonaro. As mais recentes pesquisas divulgadas ainda mostram o Presidente como o candidato mais rejeitado. O índice de rejeição, em patamar superior a 40%, pode ser impeditivo para um crescimento consistente do candidato. A campanha do Presidente poderá utilizar o espaço da propaganda eleitoral no rádio e televisão para tentar reverter a avaliação negativa do governo e da imagem de Bolsonaro. O foco da campanha do Presidente será retirar votos de Lula, reforçando pontos de fragilidade do adversário, como os escândalos de corrupção nos governos petistas.

Outro foco da campanha do Presidente, para reafirmar o alinhamento com seu eleitor tradicional, deverá ser a pauta conservadora, mirando o voto dos evangélicos.

Lula, por sua vez, vem registrando estabilidade nas intenções de voto. Ainda mantém a liderança, mas ao que parece, de acordo com os resultados das últimas pesquisas, pode estar alcançando seu teto. Para tentar sacramentar resultado favorável já no primeiro turno, o petista, além de reforçar os pontos positivos de seus dois mandatos, sobretudo econômicos e sociais, deverá incentivar o voto útil, mirando o eleitorado de Ciro Gomes. Lula também deverá explorar a composição de chapa com Geraldo Alckmin para se aproximar de grupos historicamente menos aderentes às propostas dos governos petistas, como o agronegócio e setores empresariais.

Embora sejam baixas as chances de o pleito ser decidido já no primeiro turno, este não é um cenário que pode ser completamente afastado. Uma das variáveis a ser considerada é a capacidade de outras candidaturas ampliarem as manifestações de votos declarados.

E, para que isso ocorra, alguns eventos são cruciais. Além do início da campanha no rádio e televisão, na última semana ocorreu a primeira rodada de sabatinas com os principais concorrentes à Presidência e no dia 28/08 foi realizado o primeiro debate.

As sabatinas e debates, num cenário em que os dois principais candidatos demonstram ter eleitores consolidados e cristalizados, dificilmente mudam votos, mas são eventos que podem auxiliar a validar percepções, especialmente entre eleitores indecisos.

 Os maiores beneficiários desta exposição proporcionada por aparições em cadeia nacional de rádio e televisão são Ciro Gomes e Simone Tebet, respectivamente, terceiro e quarta colocada nas pesquisas de intenção de votos.

Ciro e Simone

Enquanto Lula e Bolsonaro tendem a alimentar suas campanhas expondo antagonismos políticos, Ciro Gomes e Simone Tebet correm contra o tempo para exibirem suas propostas e mostrar que podem ser uma alternativa ao eleitor que declara que não votariam, especialmente, nem em Lula, nem em Bolsonaro.

Atualmente, cerca de 20% dos eleitores declaram que poderiam mudar a intenção de voto. É neste contingente de eleitores que as campanhas de Ciro e Simone devem se concentrar.

Mesmo que a intenção de voto de Ciro Gomes se mostre resiliente, Simone Tebet pode se beneficiar do fato de ainda ser desconhecida para grande parte do eleitorado. E neste quesito, a Senadora terá a seu favor maior tempo de exposição no rádio e na televisão durante o período de campanha eleitoral.

Simone Tebet dispõe de 2 minutos e 20 segundos em cada programa e poderá apresentar-se em 185 inserções. Já Ciro, que diferentemente dos principais concorrentes não fechou alianças, disporá de apenas 52 segundos em cada bloco e 68 inserções.

Ciro, então, precisará, driblar a desvantagem no tempo de exposição para manter os pontos que sustenta sobre os demais candidatos e garantir sobrevida à sua candidatura.

Pesquisa realizada pela FSB revela que Ciro é desconhecido por apenas 9% dos eleitores entrevistos. Dos eleitores que declaram preferência por Ciro, 47% declaram que ainda podem mudar o voto.

Uma melhora no desempenho de Simone Tebet nas pesquisas de intenção de voto nesta reta final da campanha eleitoral, ainda que não seja suficiente para levá-la para o segundo turno, poderia acelerar uma desidratação da candidatura de Ciro Gomes e promover uma migração dos eleitores de Ciro para um voto útil em Lula no primeiro turno. Hoje, 40% dos eleitores que declaram voto em Ciro Gomes, mas que poderiam mudar de opção, revelam que poderiam votar em Lula.

As próximas semanas certamente configurarão um teste do poder de persuasão dos candidatos para convencer o eleitor de que compreendem as necessidades do eleitor e contam com propostas para converter as demandas da população em ações concretas. Tanto Ciro Gomes como Simone ainda tentarão tirar votos de Lula e Bolsonaro e melhorar suas performances eleitorais. Mas a dúvida é se haverá tempo hábil, faltando pouco mais de 30 dias para o primeiro turno das eleições, para que um dos dois consiga romper com a polarização verificada entre os líderes das pesquisas.

Artigo elaborado pela equipe da Umbelino Lôbo em 29/08/2022.

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